Título da fotografia: Purificar-se, da série Olhos n’Água.
Ano: 1991
Autora: Ana Regina Nogueira
Técnica: Fotografia de base química feita em filme preto e branco 35mm, digitalizada e impressa em jato de tinta sobre papel de algodão, com margens brancas de 3,5 centímetros de cada lado.
Dimensões: 67 centímetros de altura por 97 centímetros de largura. A fotografia está montada com moldura de MDF em um tom de madeira escuro.
No centro da imagem, uma pessoa está em pé sob uma queda d’água, em meio à mata fechada. A água desce de cima para baixo e atinge diretamente a cabeça da pessoa, criando um forte efeito visual: o impacto da água se transforma em uma explosão de luz branca, muito intensa, que encobre completamente o rosto e irradia em todas as direções. O corpo aparece levemente desfocado, sugerindo movimento e fluidez, enquanto as pernas estão apoiadas sobre um chão de pedra irregular, escuro e molhado. Ao fundo, vê-se um paredão de rocha coberto por musgos, folhas e raízes, típico de uma floresta úmida. A cena transmite uma sensação de ritual, entrega e transformação, como se o corpo estivesse passando por um ato de purificação em contato direto com a natureza.
Contexto da obra
Feita na floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, a fotografia faz parte do ensaio Olhos n’Água. Neste ensaio, Ana Regina Nogueira explora a água como um elemento transformador, mediador entre o corpo e o mundo. Em suas imagens, a água aparece tanto em situações de imersão quanto de convivência, assumindo um papel ritualístico que conecta o sagrado ao cotidiano. Nesse encontro entre solidez e fluidez, entre o duro da pedra e o macio da pele e da água, a matéria se altera: corpos se distorcem, a imagem se turva, a luz irrompe. Suas fotografias são relatos sensíveis da potência desse contato.
Sobre a fotógrafa
Ana Regina Nogueira é uma das mais importantes fotógrafas mineiras dos anos 80. Os trabalhos mais conhecidos de Ana Regina são os de documentação socioantropológica, mas, também possui diversos trabalhos autorais. Suas obras estão em coleções públicas e privadas do país e no acervo do Museu Georges Pompidou, em Paris. Participou de exposições coletivas e individuais no Brasil, na Europa e nos EUA. Com uma trajetória marcada por vivências em diferentes partes do mundo e pela presença constante da escrita, sua obra revela um olhar atento e poético sobre a relação entre o ser humano e a natureza.
Título da fotografia: Mergulho no mar, da série Olhos n’Água.
Ano: 1991
Autora: Ana Regina Nogueira
Técnica: Fotografia de base química feita em filme preto e branco 35mm, digitalizada e impressa em jato de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 33 centímetros de altura por 50 centímetros de largura. A fotografia está montada com moldura de MDF em um tom de madeira escuro.
Com uma atmosfera difusa, no centro da imagem, vêem-se duas mãos humanas submersas em água, posicionadas lado a lado, com as palmas voltadas para cima e os dedos levemente afastados. As mãos aparecem claras em contraste com o fundo escuro, e a água provoca um efeito de distorção e suavização dos contornos, tornando as formas ligeiramente borradas. Os antebraços estendem-se para cima, perdendo nitidez à medida que se afastam do centro da imagem e se confundem com a área mais escura ao redor. A superfície da água não é visível, mas sua presença é indicada pela refração da luz e pela textura turva que envolve as mãos e braços. A composição é simples e simétrica, com grande área de tons cinza-escuros ao redor das mãos, criando um campo visual amplo e silencioso que enfatiza o gesto e a posição dos corpos submersos.
Contexto da obra
Feita em Angra dos Reis, a fotografia faz parte do ensaio Olhos n’Água. Neste ensaio, Ana Regina Nogueira explora a água como um elemento transformador, mediador entre o corpo e o mundo. Em suas imagens, a água aparece tanto em situações de imersão quanto de convivência, assumindo um papel ritualístico que conecta o sagrado ao cotidiano. Nesse encontro entre solidez e fluidez, entre o duro da pedra e o macio da pele e da água, a matéria se altera: corpos se distorcem, a imagem se turva, a luz irrompe. Suas fotografias são relatos sensíveis da potência desse contato.
Sobre a fotógrafa
Ana Regina Nogueira é uma das mais importantes fotógrafas mineiras dos anos 80. Os trabalhos mais conhecidos de Ana Regina são os de documentação socioantropológica, mas, também possui diversos trabalhos autorais. Suas obras estão em coleções públicas e privadas do país e no acervo do Museu Georges Pompidou, em Paris. Participou de exposições coletivas e individuais no Brasil, na Europa e nos EUA. Com uma trajetória marcada por vivências em diferentes partes do mundo e pela presença constante da escrita, sua obra revela um olhar atento e poético sobre a relação entre o ser humano e a natureza.
Fotografia Sem título, da série Iluikak.
Ano: 2017
Autora: Mara Sánchez Renero
Técnica: Fotografia digital impressa em jato de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 30 centímetros de altura por 45 centímetros de largura. A fotografia está montada com moldura de MDF em um tom de madeira escuro.
Fotografia em cores, com atmosfera escura e dramática. No centro da imagem, um homem está de pé, visto de perfil, sobre um terreno gramado no alto de uma montanha. Ele usa calça escura, botas, uma camisa clara e um casaco marrom. Na cabeça, equilibra um galo vivo, de plumagem colorida, com penas em tons de vermelho, laranja, preto e verde, que se destaca fortemente contra o fundo escuro. O homem mantém o corpo ereto e o olhar voltado para frente, com expressão séria e contemplativa.
Ao fundo, a paisagem montanhosa aparece coberta por árvores densas e envolta em neblina, criando uma sensação de profundidade, silêncio e mistério. A iluminação, aparentemente feita com flash, destaca a figura humana e o galo, separando-os nitidamente da paisagem sombria ao redor. A cena sugere um equilíbrio delicado entre corpo, animal e território, evocando ritual, simbolismo e pertencimento.
Contexto da obra
A foto que descrevemos faz parte da série Iluikak — palavra em náhuatl que significa “perto do céu”. Nesta série, Mara Sánchez Renero investiga a instabilidade da identidade indígena por meio de retratos encenados dos habitantes da Serra de Zongolica, no México. Ao se afastar das representações convencionais das comunidades indígenas mexicanas, a artista propõe um olhar que se abre à paisagem como parte inseparável desses corpos e dessas culturas.
Abrir-se para a montanha, em Iluikak, significa adentrar suas múltiplas dimensões: a montanha como forma de vida, segredo, fantasia, história, natureza e tempo. Oscilando entre documental e ficção, o projeto assume conscientemente a tensão entre aquilo que a imagem fotográfica constrói e a realidade da qual ela parte.
As fotografias da série são marcadas pelo uso enfático da luz, especialmente o flash, como elemento simbólico, transformando a paisagem montanhosa em um espaço de mistério e metamorfose. Entre o visível e o invisível, o passado e o presente, Iluikak revela um território onde cultura e natureza se entrelaçam, resistindo às pressões da modernidade, à violência e às profundas mudanças socioeconômicas que afetam as populações nahuas da região.
Sobre a fotógrafa
Mara Sánchez Renero, nascida no México em 1979, é uma fotógrafa que investiga questões de identidade, território e representação, especialmente em contextos indígenas. Seu trabalho articula fotografia encenada e documental, criando imagens que transitam entre realidade e ficção.
Fotografia Sem título, da série Iluikak.
Ano: 2017
Autora: Mara Sánchez Renero
Técnica: Fotografia digital impressa em jato de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 30 centímetros de altura por 45 centímetros de largura. A fotografia está montada com moldura de MDF em um tom de madeira escuro.
Fotografia colorida realizada em ambiente noturno, com forte contraste entre o fundo negro e o sujeito iluminado. No centro da imagem, vê-se uma vaca branca com manchas pretas, de perfil e com a cabeça baixa, aparentemente pastando sobre a grama. O animal ocupa a porção inferior central do enquadramento, enquanto o entorno permanece quase totalmente escuro.
Sobre a vaca e o espaço ao redor incide uma chuva de partículas verdes luminosas — pontos de luz intensos, de tamanhos variados, que parecem suspensos no ar e em movimento. Essas partículas criam um efeito visual artificial e quase espectral, destacando o corpo do animal e interrompendo a leitura naturalista da cena. A grama no chão é visível apenas na área iluminada pelo flash, reforçando o recorte abrupto entre luz e escuridão.
A composição combina o registro documental do animal em um campo com uma intervenção visual marcante, produzindo uma atmosfera estranha e irreal, na qual o verde brilhante contrasta violentamente com o branco da vaca e o preto absoluto do fundo.
Contexto da obra
A foto que descrevemos faz parte da série Iluikak — palavra em náhuatl que significa “perto do céu”. Nesta série, Mara Sánchez Renero investiga a instabilidade da identidade indígena por meio de retratos encenados dos habitantes da Serra de Zongolica, no México. Ao se afastar das representações convencionais das comunidades indígenas mexicanas, a artista propõe um olhar que se abre à paisagem como parte inseparável desses corpos e dessas culturas.
Abrir-se para a montanha, em Iluikak, significa adentrar suas múltiplas dimensões: a montanha como forma de vida, segredo, fantasia, história, natureza e tempo. Oscilando entre documental e ficção, o projeto assume conscientemente a tensão entre aquilo que a imagem fotográfica constrói e a realidade da qual ela parte.
As fotografias da série são marcadas pelo uso enfático da luz, especialmente o flash, como elemento simbólico, transformando a paisagem montanhosa em um espaço de mistério e metamorfose. Entre o visível e o invisível, o passado e o presente, Iluikak revela um território onde cultura e natureza se entrelaçam, resistindo às pressões da modernidade, à violência e às profundas mudanças socioeconômicas que afetam as populações nahuas da região.
Sobre a fotógrafa
Mara Sánchez Renero, nascida no México em 1979, é uma fotógrafa que investiga questões de identidade, território e representação, especialmente em contextos indígenas. Seu trabalho articula fotografia encenada e documental, criando imagens que transitam entre realidade e ficção.
Título da fotografia: Fogo Selvagem, da série exorcismo de dor
Ano: 2023
Autor: davi de jesus do nascimento
Técnica: Reprodução fotográfica impressa em jato de tinta sobre papel de algodão de uma colagem manual feita com uma fotografia polaroid e um escorpião morto sobre papel.
Dimensões: 41 centímetros de altura por 35 centímetros de largura. A fotografia está montada com moldura de MDF em um tom de madeira escura.
A fotografia é composta por um grande espaço branco, quase vazio, que destaca um pequeno objeto central. No centro está uma fotografia instantânea, no formato Polaroid, posicionada verticalmente. Na imagem da Polaroid aparece uma pessoa de pele morena clara, com cabelo black volumoso, em tons castanhos, olhando diretamente para a câmera. Ela está sem camisa, com tatuagens visíveis no peito e nos braços. Os braços estão erguidos acima da cabeça, com as mãos abertas, em um gesto que pode lembrar celebração, rendição ou voo. A expressão do rosto sugere intensidade e entrega.
Sobre a fotografia, como se saísse de dentro dela, há um escorpião real, seco ou taxidermizado, preso à superfície. O corpo do escorpião cobre a região do abdômen da pessoa fotografada. As pinças se abrem para os lados, acompanhando a largura da imagem, e a cauda curva-se para baixo, ultrapassando o limite inferior da Polaroid e avançando sobre o fundo branco da moldura. A presença do escorpião cria uma sensação de tensão, risco e dor, contrastando com a pose elevada dos braços.
O grande vazio branco ao redor da pequena fotografia acentua a solidão da imagem e concentra o olhar no confronto entre o corpo humano e o animal, entre vulnerabilidade e ameaça.
Contexto da obra
A fotografia integra a série Exorcismo de dor, na qual o fotógrafo mineiro toma como ponto de partida as águas do Rio São Francisco, à beira das quais ele estabelece a própria formulação de vida. É também ali que davi celebra a relação ancestral que sua comunidade barranqueira – como ele mesmo nomeia – mantém com o lugar, a despeito das transformações do tempo e das forças econômicas que solapam os desejos de resistência de sua comunidade. Filho de pescador, cresceu em Pirapora (MG) com os pés fincados no Velho Chico, cuja força e fragilidade, no Norte de Minas, encanta a todos.
Por meio de performances, vídeos, fotografias e esculturas, o artista investiga o corpo como extensão da natureza e suporte de memórias. E não é qualquer corpo em questão, mas sim o seu, corpo que habita as águas, encontra o barro, rasga a normatividade e encanta o olhar. Corpo que se metamorfoseia a cada ação performática do artista: ora corpo-barco, ora corpo-carranca, ora corpo-bicho, nunca corpo estanque.
Sobre o artista
Nascido em Pirapora, em 1997, davi de jesus do nascimento investiga experiências de dor, memória e sobrevivência, utilizando o próprio corpo e objetos simbólicos para criar imagens que tensionam força e fragilidade, ascensão e queda.
A partir de idas e vindas à sua cidade natal, davi traz para o espaço artístico elementos da vida ribeirinha. São carrancas, redes, caroços de pequi, canoas, que ele transforma em esculturas – monumentos de uma paisagem em constante desaparecimento. Ao explorar materiais como terra, madeira, água e fósseis, suas obras evocam processos de luto e resistência. Em um tempo de seca e degradação ambiental, sua prática dá forma aos vestígios e à ausência deixada pela morte da matéria, e do rio.
Título da fotografia: Corpo-embarcação (butuca de Alexandre Lopes)
Ano: 2019
Autor: Davi de Jesus do Nascimento
Técnica: Fotografia de base química feita com câmera médio formato, digitalizada e impressa em jato de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 110 centímetros de altura por 89 centímetros de largura. A fotografia está montada com moldura de MDF em um tom de madeira escura.
Fotografia em tons sépia, com enquadramento vertical e fundo neutro. No centro da imagem, vê-se uma pessoa de costas para a câmera, com o tronco nu visível até a altura da cintura. A pele apresenta pequenas marcas e tatuagens discretas nos braços. Ao invés de seu rosto, vemos seu cabelo, armado em um black power volumoso e denso. A pessoa segura uma carranca, escultura tradicional em madeira, posicionada em seu colo de modo que a carranca esteja voltada diretamente para a câmera. Os braços estão dobrados para frente, sustentando a escultura, o que faz com que suas mãos não estejam totalmente visíveis.
A carranca possui feições exageradas e expressivas: olhos grandes e arredondados, nariz largo e boca aberta, com dentes bem definidos. A superfície da escultura de madeira é escura e polida, contrastando com o tom mais claro da pele do corpo. A iluminação é suave e homogênea, sem sombras acentuadas, evidenciando as texturas da madeira e da pele. A composição centralizada destaca o contraste entre o corpo humano visto por trás e o objeto escultórico voltado ao espectador, criando uma imagem estática que enfatiza a relação entre corpo, objeto e frontalidade.
O grande vazio branco ao redor da pequena fotografia acentua a composição escultórica da imagem, fazendo com que o olhar do espectador foque no confronto entre o corpo humano e o animal, entre vulnerabilidade e identidade, entre a proteção e a ameaça.
Contexto da obra
A obra do fotógrafo mineiro toma como ponto de partida as águas do Rio São Francisco, à beira das quais ele estabelece a própria formulação de vida. É também ali que Davi celebra a relação ancestral que sua comunidade barranqueira – como ele mesmo nomeia – mantém com o lugar, a despeito das transformações do tempo e das forças econômicas que solapam os desejos de resistência de sua comunidade. Filho de pescador, cresceu em Pirapora (MG) com os pés fincados no Velho Chico, cuja força e fragilidade, no Norte de Minas, encanta a todos.
Por meio de performances, vídeos, fotografias e esculturas, o artista investiga o corpo como extensão da natureza e suporte de memórias. E não é qualquer corpo em questão, mas sim o seu, corpo que habita as águas, encontra o barro, rasga a normatividade e encanta o olhar. Corpo que se metamorfoseia a cada ação performática do artista: ora corpo-barco, ora corpo-carranca, ora corpo-bicho, nunca corpo estanque.
Sobre o artista
Nascido em Pirapora, em 1997, Davi de Jesus do Nascimento investiga experiências de dor, memória e sobrevivência, utilizando o próprio corpo e objetos simbólicos para criar imagens que tensionam força e fragilidade, ascensão e queda.
A partir de idas e vindas à sua cidade natal, Davi traz para o espaço artístico elementos da vida ribeirinha. São carrancas, redes, caroços de pequi, canoas, que ele transforma em esculturas – monumentos de uma paisagem em constante desaparecimento. Ao explorar materiais como terra, madeira, água e fósseis, suas obras evocam processos de luto e resistência. Em um tempo de seca e degradação ambiental, sua prática dá forma aos vestígios e à ausência deixada pela morte da matéria, e do rio.
Título da fotografia: Floresta dourada, da série Fadas do Verão
Ano: 2020
Autor: Kazuaki Koseki
Técnica: Fotografia digital impressa PVC e montada como um painel com pés de madeira em tom natural.
Dimensões: Impressão colorida sobre chapa de plástico rígido e leve, o poliestireno, 125 centímetros de altura por 160 centímetros de largura. A fotografia foi parafusada em uma estrutura de madeira colocada no meio do salão de 180cm por 160cm.
A imagem mostra uma floresta densa durante a noite ou ao entardecer. O ambiente é escuro e envolto por tons profundos de azul e verde. Troncos altos e restos de árvores se erguem verticalmente, ocupando quase toda a altura da cena, criando uma sensação de profundidade e continuidade, como se a floresta se estendesse muito além do que se pode perceber.
O chão está coberto por vegetação baixa, folhas e plantas, pouco definidas pela pouca luz. Entre as árvores e próximo ao solo, milhares de pequenos pontos luminosos dourados brilham intensamente. Esses pontos de luz estão espalhados por toda a imagem, alguns mais próximos, outros ao fundo, formando uma espécie de neblina cintilante.
As luzes parecem estar em movimento, sugerindo vagalumes em voo. Algumas aparecem como pequenos pontos nítidos; outras surgem levemente borradas, como riscos ou manchas suaves de luz, indicando deslocamento no ar. O contraste entre o azul frio da floresta e o dourado quente das luzes cria uma atmosfera mágica, silenciosa e contemplativa.
A cena transmite calma, mistério e encantamento, como se o observador estivesse diante de um fenômeno natural raro, em que a floresta parece viva e iluminada por dentro.
Contexto da obra
Em Fadas de verão, o fotógrafo japonês Kazuaki Koseki captura os rastros de luz desenhados pelos himebotaru, uma espécie endêmica do Japão, por meio de longas exposições fotográficas. As imagens revelam um brilho efêmero, que pisca como flashes de memórias em um instante que persiste no tempo.
Há oito anos, Koseki dedica-se a registrar a delicada dança dos pirilampos nas florestas de Yamagata, em Tohoku, no Japão. Um espetáculo efêmero que evoca tanto encantamento quanto urgência. Afinal, a presença desses insetos luminosos está intrinsecamente ligada à saúde ambiental das florestas.
Percorrendo a escuridão da floresta, o fotógrafo japonês revela as trilhas luminosas dos vaga-lumes pela paisagem em transformação. O artista alerta para a vulnerabilidade desse ecossistema diante da ação humana. A destruição das florestas, a poluição luminosa, o uso de pesticidas e as mudanças climáticas ameaçam a existência dos pirilampos e, com eles, a continuidade dessa experiência sensorial única.
Não é apenas no Japão que o desaparecimento dos pirilampos indica uma importância para olharmos para o mínimo, para a beleza daquilo que persiste, apesar dos pesares. A metáfora também foi explorada pelo filósofo Georges Didi-Huberman em seu livro “A Sobrevivência dos Vaga-lumes”, de 2011. Inspirado em um ensaio de Pier Paolo Pasolini, Didi-Huberman utiliza a imagem dos vaga-lumes como símbolo de resistência e esperança em tempos de opressão e obscurantismo. Assim como a luz delicada dos pirilampos persiste na escuridão, mesmo diante das adversidades, as manifestações culturais e artísticas representam focos de luminosidade que desafiam as forças que buscam apagá-las.
Sobre o fotógrafo
Kazuaki Koseki nasceu em 1977, na província de Yamagata, no Japão. Como filho mais velho de uma família dona de um estúdio fotográfico, ele cresceu cercado por imagens desde a infância. Hoje, além de administrar o estúdio que herdou, Koseki dedica-se a projetos fotográficos autorais. Em seu trabalho, Koseki investiga a relação entre natureza, tempo e percepção, utilizando a fotografia para revelar fenômenos sutis e poéticos do mundo natural, muitas vezes invisíveis ou efêmeros ao olhar cotidiano.
Montanhas. Florestas. Rios. Com sua câmera, ele adentra as paisagens selvagens de Yamaguta e da região de Tohoku, capturando a essência das quatro estações em imagens que despertam os cinco sentidos. Sua obra é uma homenagem à grandiosidade da natureza local, como na aclamada série Fadas de Verão.
Fotografia Sem título, da série Dispositivos não tecnológicos.
Ano: 2023-em processo
Autora: Chloé Azzopardi
Técnica: Fotografia impressa em jato de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 54 centímetros de altura por 41 centímetros de largura, com margens brancas de 2cm de cada lado. A fotografia está montada em uma moldura de MDF em tonalidade de madeira clara e rosada.
Fotografia em preto e branco, apresentada em enquadramento vertical e plano médio aproximado. No centro da imagem, vê-se uma pessoa de pele clara, posicionada levemente de perfil, voltada para a direita do quadro. Ela tem cabelos curtos, cacheados e volumosos, que emolduram o rosto. Os olhos estão fechados e a expressão facial é serena, com os lábios relaxados. À altura das orelhas, há duas conchas claras, semelhantes a conchas de vieira, uma de cada lado da cabeça, presas por fios ou suportes finos, posicionadas como se funcionassem como fones de ouvido. As mãos estão elevadas, com os dedos delicadamente encostados nas laterais do rosto, próximas às conchas, sem pressioná-las. A pessoa veste uma blusa escura, de mangas longas, sem estampas aparentes. O fundo é desfocado, composto por tons variados de cinza, sem elementos identificáveis com nitidez, sugerindo um ambiente externo ou natural. A iluminação é suave e difusa, criando contrastes moderados e valorizando as texturas do cabelo, da pele e da superfície estriada das conchas.
Contexto da obra
Esta série propõe uma ficção futurista na qual a jovem fotógrafa francesa Chloé Azzopardi imagina novas formas de coexistência entre humanos e outros seres vivos. Ao criar objetos híbridos – ciborgues orgânicos, montados com elementos recolhidos na natureza –, que imitam artefatos tecnológicos do nosso cotidiano, a artista questiona nossa relação com a tecnologia e o meio ambiente.
Situados entre o rudimentar e o científico, os novos dispositivos funcionam como extensão do corpo da artista. Ao utilizá-los, ela cria outra maneira de inscrever sua presença no ambiente, enquanto sugere uma resistência ao extrativismo, frequentemente justificado pelo discurso do progresso técnico.
Azzopardi cria uma iconografia de autodefesa ecológica. As fotografias de sua autoria nos mostram dispositivos cujo uso ainda é desconhecido, constituindo, assim, um universo ficcional que aponta para um tempo por vir. Desafiando a hiperartificialização do mundo, as possíveis utilizações das ferramentas compostas pela artista abrem espaço para que o espectador possa também ajudar a inventá-las.
Sobre a fotógrafa
Chloé Azzopardi é uma artista visual que mora em Paris. Ela trabalha com projetos de longo prazo que mesclam fotografia, performance e instalação. Sua pesquisa gira em torno da ecologia, das novas tecnologias e da construção de imaginários após o capitaloceno.
Recebeu diversos prêmios e a bolsa para artistas emergentes da Lucie Foundation. Realizou uma residência artística na Villa Perochon durante os encontros de jovens fotógrafos internacionais, com curadoria de Joan Fontcuberta.
Fotografia Sem título, da série Dispositivos não tecnológicos.
Ano: 2023
Autora: Chloé Azzopardi
Técnica: Fotografia impressa em jato de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 54 centímetros de altura por 42 centímetros de largura, com margens brancas de 2cm de cada lado. A fotografia está montada em uma moldura de MDF em tonalidade de madeira clara e rosada.
A imagem em preto e branco tem enquadramento bem fechado e nos mostra um detalhe do rosto de uma pessoa, com foco principal em um dos olhos. O olho aparece ao centro da foto, nítido e iluminado, com a íris clara contrastando com as sombras ao redor. Os cílios e a sobrancelha são bem definidos, revelando textura e densidade dos pelos.
À frente do olho, há um objeto circular de arame, semelhante a um aro metálico artesanal, atravessado por hastes finas que formam uma espécie de cruz ou mira. Esse objeto é segurado pela mão da própria pessoa, visível na parte inferior da imagem, com os dedos pressionando uma das hastes verticais. O metal apresenta pequenas irregularidades, marcas de desgaste e amarrações, sugerindo um objeto feito manualmente ou improvisado.
A proximidade extrema entre o objeto e o rosto cria uma sobreposição visual: o aro enquadra parcialmente o olho, enquanto as hastes cortam o campo visual, produzindo uma sensação de contenção, mediação ou tentativa de enquadramento do olhar. A luz lateral acentua os relevos da pele, evidenciando poros, linhas sutis e sombras, contribuindo para um efeito tátil e intimista. A composição enfatiza a relação entre visão, instrumento e gesto, criando uma imagem de forte tensão simbólica e corporal.
Contexto da obra
Esta série propõe uma ficção futurista na qual a jovem fotógrafa francesa Chloé Azzopardi imagina novas formas de coexistência entre humanos e outros seres vivos. Ao criar objetos híbridos – ciborgues orgânicos, montados com elementos recolhidos na natureza –, que imitam artefatos tecnológicos do nosso cotidiano, a artista questiona nossa relação com a tecnologia e o meio ambiente. Situados entre o rudimentar e o científico, os novos dispositivos funcionam como extensão do corpo da artista. Ao utilizá-los, ela cria outra maneira de inscrever sua presença no ambiente, enquanto sugere uma resistência ao extrativismo, frequentemente justificado pelo discurso do progresso técnico.
Azzopardi cria uma iconografia de autodefesa ecológica. As fotografias de sua autoria nos mostram dispositivos cujo uso ainda é desconhecido, constituindo, assim, um universo ficcional que aponta para um tempo por vir. Desafiando a hiperartificialização do mundo, as possíveis utilizações das ferramentas compostas pela artista abrem espaço para que o espectador possa também ajudar a inventá-las.
Sobre a fotógrafa
Chloé Azzopardi é uma artista visual que vive em uma ilha nos arredores
de Paris. Ela trabalha com projetos de longo prazo que mesclam
fotografia, performance e instalação. Sua pesquisa gira em torno da
ecologia, das novas tecnologias e da construção de imaginários após o
capitaloceno.
Foi premiada com a bolsa Brouillon d’un rêve da SCAM, o prêmio New
Writings of Environmental Photography no Festival La Gacilly e a bolsa para
artistas emergentes da Lucie Foundation. Realizou uma residência
artística na Villa Perochon durante os encontros de jovens fotógrafos
internacionais, com curadoria de Joan Fontcuberta.
Fotografia Sem título, da série Las Pelilargas
Ano: 2006
Autora: Irina Werning
Técnica: Fotografia impressa em jato de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 50 cm de altura por 40 cm de largura, com margens laterais brancas. A fotografia está montada em uma moldura de MDF em tons de mel.
Fotografia em cores, em enquadramento vertical e plano inteiro, mostrando uma pessoa posicionada de frente para a câmera, em ambiente externo. Ela está em pé sobre uma rocha irregular, no centro inferior da imagem. A pessoa tem cabelos muito longos, lisos e escuros, que caem à frente do corpo, cobrindo quase todo o rosto e ultrapassando a altura dos joelhos, aproximando-se do chão. Apenas parte de um dos olhos é visível por entre os fios de cabelo.
Veste um suéter de mangas longas cinza claro, calça verde-clara de corte reto e tênis claros. No pulso esquerdo, um relógio. Os braços estão relaxados ao longo do corpo, com as mãos soltas. O entorno é composto por um terreno seco, com pedras, galhos e vegetação rala. Ao fundo, há árvores altas, de troncos escuros e copas pouco densas, com poucos galhos e folhas, permitindo ver o céu azul entre elas. A luz natural é direta, evidenciando as texturas do cabelo, da roupa, das pedras e do solo.
Contexto da obra
Nos últimos 20 anos, a fotógrafa argentina Irina Werning, conhecida por seus projetos documentais de longa duração, tem viajado por toda a América Latina em busca de meninas e mulheres que cultivam longos cabelos. Werning encontra suas personagens colando cartazes em mercados e escolas, além de organizar competições entre as candidatas que fazem jus ao nome da série – da qual, aqui, apresentamos apenas um recorte.
Sua fotografia, tanto em cor quanto em preto e branco, explora essa prática cultural por meio de uma estética por vezes surreal. Sob a direção da fotógrafa, as personagens, muitas vezes, aparecem quase camufladas pelas longas madeixas. Com o rosto escondido, o corpo se torna um elemento estranho, quase secundário, abrindo espaço para a aparição de uma superfície capilar, cuja extensão é ancestral. Para muitas comunidades indígenas na Argentina e em outras regiões da América Latina, o cabelo é um elo espiritual que conecta as mulheres à natureza e aos ensinamentos transmitidos entre gerações.
Fotografando em cenários diversos, de paisagens desérticas e centros de treinamento de equitação a vestiários e estúdios improvisados, Irina registra a abrangência do costume das “pelilargas”, celebrando a paciência, o afeto e o cuidado necessários para que seja cultivado o cabelo e preservado o saber que eles carregam.
Sobre a fotógrafa
Irina Werning é uma fotógrafa argentina dedicada a projetos documentais pessoais de longo prazo. Formou-se em Economia em Buenos Aires, fez mestrado em História, em Buenos Aires, e outro em Fotojornalismo, na Universidade de Westminster, Londres.
Ela venceu diversos prêmios como o 1o lugar em Retratos no Sony World Photography Awards 2012, o World Press Photo (Categoria História) em 2022 e a prestigiosa bolsa Eugene Smith Grant 2023. Seu trabalho também recebeu quatro Bolsas Pulitzer e o título de Nat Geo Explorer. Em 2015, a TIME a destacou como uma das nove fotógrafas argentinas para acompanhar.
Fotografia Sem título, da série Las Pelilargas
Ano: 2006-em processo
Autora: Irina Werning
Técnica: Fotografia impressa em jato de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 60 centímetros de altura por 80 centímetros de largura, com margens brancas na parte superior e inferior medindo 2 centímetros e margens brancas nas laterais medindo 3 centímetros. A fotografia está montada em uma moldura de MDF em tons de mel.
Fotografia em cores, em enquadramento horizontal e plano médio, mostrando uma pessoa posicionada de perfil, voltada para a direita da imagem, contra um fundo liso em tom marrom uniforme. A pessoa tem pele clara e cabelos muito longos, lisos e castanho-claros, que descem além da altura do tronco. Parte do cabelo está presa a um cabide de madeira, suspenso no ar à esquerda da imagem, criando uma ligação contínua entre a cabeça da pessoa e o objeto. O cabide está pendurado por um gancho metálico, visível na parte superior esquerda do enquadramento. O cabelo forma uma espécie de arco ou curva suave entre a cabeça e o cabide, com grande volume e textura evidente. O rosto aparece parcialmente, com nariz, boca e queixo visíveis; os olhos não são claramente perceptíveis. A pessoa veste uma roupa clara, pouco visível, sem detalhes identificáveis. A iluminação é controlada e suave, criando sombras discretas e realçando o brilho e a textura dos fios de cabelo, que se tornam o elemento central da composição.
Contexto da obra
Nos últimos 20 anos, a fotógrafa argentina Irina Werning, conhecida por seus projetos documentais de longa duração, tem viajado por toda a América Latina em busca de meninas e mulheres que cultivam longos cabelos. Werning encontra suas personagens colando cartazes em mercados e escolas, além de organizar competições entre as candidatas que fazem jus ao nome da série – da qual, aqui, apresentamos apenas um recorte.
Sua fotografia, tanto em cor quanto em preto e branco, explora essa prática cultural por meio de uma estética por vezes surreal. Sob a direção da fotógrafa, as personagens, muitas vezes, aparecem quase camufladas pelas longas madeixas. Com o rosto escondido, o corpo se torna um elemento estranho, quase secundário, abrindo espaço para a aparição de uma superfície capilar, cuja extensão é ancestral. Para muitas comunidades indígenas na Argentina e em outras regiões da América Latina, o cabelo é um elo espiritual que conecta as mulheres à natureza e aos ensinamentos transmitidos entre gerações.
Fotografando em cenários diversos, de paisagens desérticas e centros de treinamento de equitação a vestiários e estúdios improvisados, Irina registra a abrangência do costume das “pelilargas”, celebrando a paciência, o afeto e o cuidado necessários para que seja cultivado o cabelo e preservado o saber que eles carregam.
Sobre a fotógrafa
Irina Werning é uma fotógrafa argentina dedicada a projetos documentais pessoais de longo prazo. Formou-se em Economia em Buenos Aires, fez mestrado em História, em Buenos Aires, e outro em Fotojornalismo, na Universidade de Westminster, Londres.
Ela venceu diversos prêmios como o 1o lugar em Retratos no Sony World Photography Awards 2012, o World Press Photo (Categoria História) em 2022 e a prestigiosa bolsa Eugene Smith Grant 2023. Seu trabalho também recebeu quatro Bolsas Pulitzer e o título de Nat Geo Explorer. Em 2015, a TIME a destacou como uma das nove fotógrafas argentinas para acompanhar.
Fotografia Sem título, da série Seridó Potiguar: diário de uma viagem geológica
Ano: 2021
Autora: Valentina Tong
Técnica: Fotografias de base química feitas com câmera médio formato, digitalizadas e impressas em jato de tinta sobre papel de algodão e coladas em papel canson, finalizadas com escrita manual.
Dimensões: 29,7 centímetros de altura por 42 centímetros de largura. A prancha está montada em um sanduíche de vidro com garras de metal.
Imagem em cores, mostrando duas fotografias retangulares fixadas lado a lado sobre um papel cinza claro. À esquerda, há uma fotografia em formato vertical que ocupa maior altura: nela, vê-se uma grande formação rochosa de aspecto pontiagudo, semelhante a um pico, ocupando o centro da imagem. A rocha tem superfície áspera, em tons de cinza, e se destaca contra uma paisagem ampla ao fundo, composta por áreas escuras de vegetação ou terreno e um céu nublado, com nuvens densas em tons acinzentados. À direita, há uma segunda fotografia em formato horizontal, levemente sobreposta ou alinhada à primeira, mostrando um conjunto de grandes pedras arredondadas em primeiro plano, também em tons de cinza e azulados. Ao fundo dessa imagem, observa-se uma paisagem extensa e plana, com relevo distante e céu claro, criando sensação de profundidade. Abaixo das duas fotografias, diretamente na parede, há um texto manuscrito em tinta escura, composto por algumas linhas curtas, escrito de forma irregular e legível, funcionando como legenda ou anotação. O conjunto estabelece uma relação visual entre as duas paisagens rochosas e o texto, organizados de maneira simples e horizontal no espaço da parede.
Contexto da obra
Em Diário de uma viagem geológica, Valentina Tong investiga a materialidade das formações rochosas do Seridó, no Rio Grande do Norte, traçando conexões entre tempos geológicos, paisagens em transformação e a presença humana na região. Coluna basáltica, fratura de alívio, lavra de scheelita, itacoatiara, vale vulcânico, rocha plutônica, magma derramado, arenito ferruginoso: imagens descobertas no percurso da travessia de Cerro Corá a Parelhas, passando por Currais Novos, Gargalheiras e Carnaúba dos Dantas. Percorrendo sítios arqueológicos, pedreiras e paisagens ancestrais, a fotógrafa parte da materialidade das estrutura geológica para provocar a reflexão sobre seus diferentes significados simbólicos diante da nossa relação com a matéria e o tempo
O diário de Tong, porém, não é como o convencional diário de expedições científicas. Nele, a artista questiona como a geologia molda a economia e a memória de um território. Aproximando, em suas colagens e anotações, sítios arqueológicos com pinturas e gravuras rupestres a pedreiras de extração, Valentina reflete sobre a presença dos vestígios de povos originários que ali habitaram. Sua fotografias nos guiam pela transformação da matéria-prima que alimenta a arquitetura e a construção daquela paisagem.
O projeto propõe, portanto, uma reflexão sobre permanência e apagamento. Documentar lugares que condensam tempos geológicos tão longínquos significa entender a história do território como um processo contínuo. Entre extração e resistência, a paisagem se revela como um palimpsesto, onde camadas de história seguem em constante reescrita.
Sobre a fotógrafa
Valentina Tong é arquiteta, fotógrafa e curadora. Há uma década percorre o país com sua câmera de médio formato documentando a paisagem geológica brasileira e suas complexas relações com a arqueologia, a arquitetura e a extração mineral. O projeto Viagem Geológica já foi exibido no Museu Brasileiro da Escultura, no Museu Paranaense, no Quase Espaço e na Central Galeria. Venceu o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia da Funarte, em 2021, e foi nomeada ao Prêmio Gabriele Basílico de Fotografia de Arquitetura e Paisagem, em Milão, em 2025. Seus ensaios já foram publicados nas revistas OLD, Art Dialogues e Amarello. De 2014 a 2020 foi curadora-assistente do departamento de Fotografia Contemporânea do Instituto Moreira Salles, onde trabalhou na pesquisa em acervos fotográficos e projetos de exposição com Claudia Andujar, Rosângela Rennó, Sofia Borges, Dulce Soares, Mauro Restiffe, Bárbara Wagner, Mídia Ninja e Coletivo Garapa, entre outros. Foi a responsável pela adaptação da exposição “Claudia Andujar: a luta Yanomami” na sua itinerância internacional.
Fotografia Sem título, da série Seridó Potiguar: diário de uma viagem geológica
Ano: 2021
Autora: Valentina Tong
Técnica: Fotografia de base química feita com câmera médio formato, digitalizada e impressa em jato de tinta sobre papel de algodão e colada em papel canson, finalizadas com escrita manual.
Dimensões: 29,7 centímetros de altura por 42 centímetros de largura. A prancha está montada em um sanduíche de vidro com garras de metal.
Fotografia mostrando uma única imagem quadrada fixada sobre um papel cinza. A imagem fotográfica retrata uma paisagem marcada por extração de pedra. No centro da imagem, vê-se uma grande cava retangular escavada na rocha, com paredes verticais de tons acinzentados, onde as marcas de corte são visíveis em linhas e camadas horizontais. No interior da cava há água escura, quase preta, ocupando o fundo, refletindo parcialmente as bordas de pedra. Dentro dessa área alagada, aparecem blocos retangulares de rocha clara, alguns submersos parcialmente e outros apoiados uns sobre os outros, com arestas bem definidas. Na parte superior da imagem, acima da cava, observa-se o terreno natural, com solo seco, pedras soltas, blocos irregulares espalhados e vegetação rala, composta por arbustos baixos e pequenas árvores. A paleta de cores é dominada por cinzas, marrons e verdes apagados, reforçando o caráter mineral e árido da paisagem. Abaixo da fotografia, diretamente na parede, há um texto manuscrito em tinta escura, disposto em poucas linhas, funcionando como legenda explicativa da imagem.
Contexto da obra
Em Diário de uma viagem geológica, Valentina Tong investiga a materialidade das formações rochosas do Seridó, no Rio Grande do Norte, traçando conexões entre tempos geológicos, paisagens em transformação e a presença humana na região. Coluna basáltica, fratura de alívio, lavra de scheelita, itacoatiara, vale vulcânico, rocha plutônica, magma derramado, arenito ferruginoso: imagens descobertas no percurso da travessia de Cerro Corá a Parelhas, passando por Currais Novos, Gargalheiras e Carnaúba dos Dantas. Percorrendo sítios arqueológicos, pedreiras e paisagens ancestrais, a fotógrafa parte da materialidade das estrutura geológica para provocar a reflexão sobre seus diferentes significados simbólicos diante da nossa relação com a matéria e o tempo
O diário de Tong, porém, não é como o convencional diário de expedições científicas. Nele, a artista questiona como a geologia molda a economia e a memória de um território. Aproximando, em suas colagens e anotações, sítios arqueológicos com pinturas e gravuras rupestres a pedreiras de extração, Valentina reflete sobre a presença dos vestígios de povos originários que ali habitaram. Sua fotografias nos guiam pela transformação da matéria-prima que alimenta a arquitetura e a construção daquela paisagem.
O projeto propõe, portanto, uma reflexão sobre permanência e apagamento. Documentar lugares que condensam tempos geológicos tão longínquos significa entender a história do território como um processo contínuo. Entre extração e resistência, a paisagem se revela como um palimpsesto, onde camadas de história seguem em constante reescrita.
Sobre a fotógrafa
Valentina Tong é arquiteta, fotógrafa e curadora. Há uma década percorre o país com sua câmera de médio formato documentando a paisagem geológica brasileira e suas complexas relações com a arqueologia, a arquitetura e a extração mineral. O projeto Viagem Geológica já foi exibido no Museu Brasileiro da Escultura, no Museu Paranaense, no Quase Espaço e na Central Galeria. Venceu o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia da Funarte, em 2021, e foi nomeada ao Prêmio Gabriele Basílico de Fotografia de Arquitetura e Paisagem, em Milão, em 2025. Seus ensaios já foram publicados nas revistas OLD, Art Dialogues e Amarello. De 2014 a 2020 foi curadora-assistente do departamento de Fotografia Contemporânea do Instituto Moreira Salles, onde trabalhou na pesquisa em acervos fotográficos e projetos de exposição com Claudia Andujar, Rosângela Rennó, Sofia Borges, Dulce Soares, Mauro Restiffe, Bárbara Wagner, Mídia Ninja e Coletivo Garapa, entre outros. Foi a responsável pela adaptação da exposição “Claudia Andujar: a luta Yanomami” na sua itinerância internacional.
Fotografia Sem título, da série Atlântica
Ano: 2019
Autora: Layla Motta
Técnica: Fotografia de base química, digitalizada e impressa em jato de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 26 centímetros de altura por 33 centímetros de largura. A fotografia está montada em uma moldura de MDF em tons de mel.
Fotografia em cores, em enquadramento horizontal, mostrando uma paisagem marítima vista à distância. No centro da imagem, há uma ilha de formato arredondado e baixo, coberta por vegetação densa e escura, circundada por uma faixa estreita de rochas claras junto à linha d’água. A ilha está isolada, cercada por mar calmo, em tons azul-acinzentados, com superfície lisa e poucas ondulações visíveis. O horizonte é alto, próximo ao terço superior da imagem, separando o mar de um céu amplo, ocupado por nuvens espessas e difusas em tons rosados, acinzentados e azulados, sugerindo luz suave de início ou fim de dia. No primeiro plano, na parte inferior da imagem, aparecem silhuetas escuras de vegetação, como galhos e arbustos, desfocados e recortando a paisagem. À direita, também em primeiro plano, vê-se a silhueta parcial de um objeto escuro e vertical, sem detalhes identificáveis. A composição é equilibrada, com a ilha centralizada e envolta por grandes áreas de céu e água, criando sensação de isolamento espacial.
Contexto da obra
“Atlântica” é um projeto fotográfico desenvolvido pela fotógrafa Layla Motta no litoral norte do estado de São Paulo, desde 2019. Ali, o encontro entre mata, montanha e mar dá origem a um modo de vida singular – marcado por uma estreita relação entre os habitantes da região e a natureza que os circunda – e a uma forma de habitar a Terra, que vem sofrendo profundas transformações.
Neste projeto, ainda em desenvolvimento, a artista busca refletir sobre a melancolia gerada pelas mudanças ambientais, sociais e subjetivas que ocorrem no local, apontando para um sentimento que se aproxima de certa ansiedade climática que assola nosso tempo e que, no caso, é mais que justificada diante do ambiente que se esvai.
Sobre a fotógrafa
Fotografando com filmes no formato 35mm e 120, Layla Motta explora tanto a própria intimidade com o norte do litoral paulista – intimidade essa construída ao longo da vida –, quanto a complexa relação de outros seres humanos com a reminiscência da Mata Atlântica que ainda pode ser encontrada na região. Esses são os elementos que compõem os principais interesses da artista, que não apenas documenta, mas também reflete, à sua maneira, sobre as mudanças que atravessam essa paisagem litorânea.
Fotografia Sem título, da série Atlântica.
Ano: 2019–em processo
Autora: Layla Motta
Técnica: Fotografia de base química, digitalizada e impressa em jato de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 26 centímetros de altura por 33 centímetros de largura, com margens brancas na parte superior e inferior da imagem, medindo 2 centímetros. A fotografia está montada em uma moldura de MDF em tons de mel.
Fotografia colorida, em formato horizontal. No centro da imagem, vê-se uma pessoa agachada sobre uma superfície rasa de água, com o corpo voltado levemente para a direita do enquadramento. Ela está com os joelhos flexionados junto ao corpo e os braços cruzados sobre as pernas, em uma postura de recolhimento. Uma das mãos desce em direção à água, com os dedos tocando levemente a superfície, provocando pequenas ondulações.
A pessoa veste um biquíni de tom claro e tem cabelos longos e claros, soltos, que caem sobre os ombros. O rosto está inclinado para baixo e para o lado, com o olhar direcionado à água. A água funciona como espelho, refletindo o céu coberto por nuvens claras, criando uma superfície azul-acinzentada contínua que ocupa quase todo o fundo da imagem. Não há linha de horizonte visível, o que faz com que corpo, céu e reflexo se confundam no espaço visual.
A iluminação é suave e natural, sem contrastes fortes, ressaltando a textura da pele, a transparência da água e os reflexos das nuvens. A composição transmite quietude e suspensão, com predominância de tons frios e uma sensação de silêncio e imobilidade.
Contexto da obra
“Atlântica” é um projeto fotográfico desenvolvido pela fotógrafa Layla Motta no litoral norte do estado de São Paulo, desde 2019. Ali, o encontro entre mata, montanha e mar dá origem a um modo de vida singular – marcado por uma estreita relação entre os habitantes da região e a natureza que os circunda – e a uma forma de habitar a Terra, que vem sofrendo profundas transformações.
Neste projeto, ainda em desenvolvimento, a artista busca refletir sobre a melancolia gerada pelas mudanças ambientais, sociais e subjetivas que ocorrem no local, apontando para um sentimento que se aproxima de certa ansiedade climática que assola nosso tempo e que, no caso, é mais que justificada diante do ambiente que se esvai.
Sobre a fotógrafa
Fotografando com filmes no formato 35mm e 120, Layla Motta explora tanto a própria intimidade com o norte do litoral paulista – intimidade essa construída ao longo da vida –, quanto a complexa relação de outros seres humanos com a reminiscência da Mata Atlântica que ainda pode ser encontrada na região. Esses são os elementos que compõem os principais interesses da artista, que não apenas documenta, mas também reflete, à sua maneira, sobre as mudanças que atravessam essa paisagem litorânea.
Fotografia sem título, da série Amazônia, inverno e verão
Ano: 1973
Autor: Walter Firmo
Técnica: Reprodução fotográfica da Revista impressa em jatos de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 70 centímetros de altura por 50 centímetros de largura. Fotografia montada em moldura de MDF em tom de madeira escura.
Fotografia colorida de registro de uma revista com suas páginas abertas, cada uma preenchida por uma fotografias no formato vertical. As duas fotografias mostram a mesma casa de madeira, elevada sobre estacas, com paredes formadas por tábuas verticais e telhado também de madeira sob o céu azul. Na página da esquerda, a fotografia mostra também o solo irregular, formado por pedras secas e em cor bege, que ocupa o quadrante inferior da imagem.
No primeiro plano, pisando no chão de pedras, está um casal que segura um quadro com a imagem religiosa de Jesus Cristo, emoldurado por uma moldura clara. Na porta da casa, acima deles, aparecem várias pessoas, entre adultos e crianças, agrupadas e olhando em direção à câmera. Levemente deslocado do centro da imagem, a família ocupa a direita do quadro, agrupados na escada que leva à porta da casa. O grupo é composto por 5 adultos e 3 crianças, sendo duas delas crianças de colo.
Na página da direita, vemos a mesma casa e a mesma família, porém, agora, ao invés do solo pedregoso e da escada, o quadrante inferior da imagem mostra as águas de um rio de águas barrentas. A família posa novamente para a foto, na frente da casa, utilizando a escada como suporte. No entanto, o casal que está no primeiro plano, segurando a mesma imagem religiosa, está com o corpo imerso na água, submersos até o peito. As outras pessoas, incluindo crianças, aparecem na porta da casa e ao longo da escada, repetindo a mesma composição para a câmera.
As roupas das pessoas são simples, com predominância de vestidos e camisas em tons claros e azulados. A luz é natural e direta, revelando a textura da madeira, das pedras e da superfície da água. A composição enfatiza a repetição da cena em condições distintas de solo seco e área alagada, mantendo o mesmo ponto de vista e enquadramento geral.
Contexto da obra
Publicada na revista Realidade, em janeiro de 1973, a série fotográfica de Walter Firmo retrata famílias no município de Prainha, às margens do Rio Amazonas, no Pará. Acompanhando os mesmos personagens e locais, durante o verão e o inverno amazônico, Firmo realiza um panorama das mudanças sazonais ocorridas na paisagem e na vida cotidiana dos moradores ribeirinhos. Fortemente marcada pela presença das águas – tanto do rio, quanto das chuvas –, na região amazônica se instaura outra temporalidade, diferente da que vivenciamos em outras partes do país.
Repetindo os mesmos ângulos e enquadramentos na estação de cheia – o inverno – e na vazante – o verão, o fotógrafo direciona seus personagens a encenar a fotografia feita anteriormente, engenhosamente documentando as estratégias necessárias para a manutenção da vida naquele lugar. As casas de palafita, a presença de animais perigosos, como o jacaré-açu e a sucuri, as perdas com as chuvas e os danos das secas, tudo isso está ali, na fotografia de Firmo. E, apesar de tudo isso, encontram-se ali também aqueles que insistem em fazer da beira do rio a sua morada.
Para exibir este trabalho, a Curadoria optou por buscar um exemplar da Realidade, nº 82, de janeiro de 1973, e reproduzir suas páginas, mostrando assim a riqueza da elaboração gráfica usada. A revista Realidade, publicada pela Editora Abril entre 1966 e 1976, foi um importante veículo de comunicação impresso, com a produção de longas e profundas reportagens ao redor do país, que ganhavam espaço e diagramação revolucionárias, inéditas e nunca mais vistas no jornalismo brasileiro. Em sua redação, emergiram importantes fotógrafos, além do próprio Walter, como Claudia Andujar, George Love e Maureen Bisilliat.
Sobre o fotógrafo
Aclamado como um dos mais importantes autores a trabalhar com fotografia colorida no Brasil, e um dos primeiros a valorizar e divulgar a contribuição da cultura negra em seu trabalho, Walter Firmo nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1937. Autodidata, começou a carreira no jornal carioca Última Hora, em 1957, passando a colaborar com o Jornal do Brasil em 1960. Cinco anos mais tarde integrou a equipe inaugural da revista Realidade, que o tornou nacionalmente conhecido. Depois de trabalhar para diversas publicações da Bloch Editores, criou em 1973 a agência Câmara Três, em associação com Sebastião Barbosa e Claus Meyer, mas a deixou no ano seguinte para fotografar para a sucursal da revista Veja no Rio de Janeiro.
Foi diretor do Instituto Nacional da Fotografia da Fundação Nacional de Arte no período compreendido entre 1986 e 1991. Com a extinção do INFoto no governo Collor, foi reintegrado em 1994, passando a atuar na nova Área de Fotografia da Funarte, pela qual se aposentou em 2007. Publicou os livros: Walter Firmo: Antologia Fotográfica (1989); e Nas Trilhas do Rosa (1996); Paris: Paradas Sobre Imagens (2005); Brasil: Imagens da Terra e do Povo (2009). Ganhador do prêmio Esso de reportagem de 1963, pela série de cinco reportagens “Cem dias na Amazônia de ninguém”, foi premiado sete vezes no Concurso Internacional de Fotografia Nikon, conquistando ainda o Prêmio Golfinho de Ouro, concedido pelo governo do Estado do Rio de Janeiro em 1985.
Fotografia sem título, da série Amazônia, inverno e verão
Ano: 1973
Autor: Walter Firmo
Técnica: Reprodução fotográfica da Revista impressa em jatos de tinta sobre papel de algodão.
Dimensões: 70 centímetros de altura por 50 centímetros de largura. Fotografia montada em moldura de MDF em tom de madeira escura.
Fotografia colorida de registro de uma revista com suas páginas abertas, apresentando em composição de quatro imagens distribuídas em duas linhas, formando um conjunto. Na linha superior, duas imagens horizontais mostram uma casa simples elevada sobre estacas, localizada em uma paisagem aberta. À esquerda, a casa aparece cercada por água rasa e vegetação verde, com um curso de água em primeiro plano refletindo o céu parcialmente nublado; à direita, a mesma casa é vista a partir de ponto de vista semelhante, porém com o solo seco, rachado e sem água, ocupando o primeiro plano. Em ambas as imagens, há uma árvore de copa ampla à direita da casa e céu azul com nuvens esparsas.
Na linha inferior, duas imagens mostram o interior de um espaço doméstico aberto, com uma mulher em pé ao lado de um fogão rústico à lenha. À esquerda, o ambiente externo visto ao fundo está alagado, com água alcançando os arredores da construção; à direita, o mesmo espaço aparece seco, com solo exposto e cercas de madeira ao fundo. A mulher segura um utensílio de cozinha sobre uma panela, posicionada acima do fogo visível no fogão. Sobre uma bancada, há panelas, recipientes e um balde plástico. A luz é natural, variando entre suave e direta, evidenciando as diferenças de textura entre a água, a vegetação, a terra seca e os elementos de madeira. O conjunto mantém enquadramentos semelhantes para contrastar visualmente as condições de ambiente alagado e seco.
Contexto da obra
Publicada na revista Realidade, em janeiro de 1973, a série fotográfica de Walter Firmo retrata famílias no município de Prainha, às margens do Rio Amazonas, no Pará. Acompanhando os mesmos personagens e locais, durante o verão e o inverno amazônico, Firmo realiza um panorama das mudanças sazonais ocorridas na paisagem e na vida cotidiana dos moradores ribeirinhos. Fortemente marcada pela presença das águas – tanto do rio, quanto das chuvas –, na região amazônica se instaura outra temporalidade, diferente da que vivenciamos em outras partes do país.
Repetindo os mesmos ângulos e enquadramentos na estação de cheia – o inverno – e na vazante – o verão, o fotógrafo direciona seus personagens a encenar a fotografia feita anteriormente, engenhosamente documentando as estratégias necessárias para a manutenção da vida naquele lugar. As casas de palafita, a presença de animais perigosos, como o jacaré-açu e a sucuri, as perdas com as chuvas e os danos das secas, tudo isso está ali, na fotografia de Firmo. E, apesar de tudo isso, encontram-se ali também aqueles que insistem em fazer da beira do rio a sua morada.
Para exibir este trabalho, a Curadoria optou por buscar um exemplar da Realidade, nº 82, de janeiro de 1973, e reproduzir suas páginas, mostrando assim a riqueza da elaboração gráfica usada. A revista Realidade, publicada pela Editora Abril entre 1966 e 1976, foi um importante veículo de comunicação impresso, com a produção de longas e profundas reportagens ao redor do país, que ganhavam espaço e diagramação revolucionárias, inéditas e nunca mais vistas no jornalismo brasileiro. Em sua redação, emergiram importantes fotógrafos, além do próprio Walter, como Claudia Andujar, George Love e Maureen Bisilliat.
Sobre o fotógrafo
Aclamado como um dos mais importantes autores a trabalhar com fotografia colorida no Brasil, e um dos primeiros a valorizar e divulgar a contribuição da cultura negra em seu trabalho, Walter Firmo nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1937. Autodidata, começou a carreira no jornal carioca Última Hora, em 1957, passando a colaborar com o Jornal do Brasil em 1960. Cinco anos mais tarde integrou a equipe inaugural da revista Realidade, que o tornou nacionalmente conhecido. Depois de trabalhar para diversas publicações da Bloch Editores, criou em 1973 a agência Câmara Três, em associação com Sebastião Barbosa e Claus Meyer, mas a deixou no ano seguinte para fotografar para a sucursal da revista Veja no Rio de Janeiro.
Foi diretor do Instituto Nacional da Fotografia da Fundação Nacional de Arte no período compreendido entre 1986 e 1991. Com a extinção do INFoto no governo Collor, foi reintegrado em 1994, passando a atuar na nova Área de Fotografia da Funarte, pela qual se aposentou em 2007. Publicou os livros: Walter Firmo: Antologia Fotográfica (1989); e Nas Trilhas do Rosa (1996); Paris: Paradas Sobre Imagens (2005); Brasil: Imagens da Terra e do Povo (2009). Ganhador do prêmio Esso de reportagem de 1963, pela série de cinco reportagens “Cem dias na Amazônia de ninguém”, foi premiado sete vezes no Concurso Internacional de Fotografia Nikon, conquistando ainda o Prêmio Golfinho de Ouro, concedido pelo governo do Estado do Rio de Janeiro em 1985.