Este livro surge em um momento em que os direitos das mulheres vêm sendo ameaçados em todo o mundo e a expressão “caça às bruxas” volta a ocupar o espaço público. Trata-se de uma edição limitada, costurada à mão, que estabelece diálogos entre múltiplos elementos e convida o leitor a uma jornada pela magia, para falar sobre curandeiras, História e os direitos das mulheres. Esta obra é resultado de dois anos de pesquisa.
Foto-rituais para a Desaparição (Photo-Rituals for Disappearance) foi indicado como um dos Fotolivros Favoritos do Ano pela LensCulture e pela revista WE ARE da Royal Photographic Society. Finalista ao EIBOOKS Awards 2025, a obra tem rodado o mundo, tendo sido exibida na The Photographers’ Gallery, em Londres, e também em Arles, Nova York, Cidade do México, Lisboa, Buenos Aires, seguindo agora para a Itália, na exposição principal do Fotografia Europea 2026.
Nesta obra, parto do meu território pessoal (minha história e meu corpo) para confrontar o espaço social e político da misoginia, que tem oprimido e violado corpos femininos desde tempos imemoriais até o presente. Através de rituais para a “desaparição”, que concedo e executo junto a outras mulheres para curar uma experiências traumáticas de amor e morte, a obra celebra a maneira ancestral que as mulheres têm de lidar com o amor, o cuidado e a cura. Absorvo a aura dos rituais pagãos para exaltar os poderes de cura que herdamos das xamãs, curandeiras e parteiras que vieram antes de nós. Assim, esta obra se desenvolve como um ato de resistência, um contraponto à estigmatização e perseguição histórica às mulheres, rotuladas como “macumbeira”, “bruxa”.
Estima-se que 70% das vítimas das caças às bruxas dos séculos XVI, XVII e XVIII eram mulheres. Sendo eu latino-americana, questiono-me sobre como herdamos este estigma do Norte Global e como isso reverberou e ainda reverbera aqui no Brasil: como uma forma de violência extrema e apagamento colonial e pós-colonial das culturas Ameríndias e Afrodescendentes. O terror que permeou a vida cotidiana naquela época na verdade reflete um preconceito e perseguição que ainda seguem existindo em escala global. Relatórios da ONU indicam que, na última década, houve um aumento de mulheres agredidas e assassinadas sob acusações de “feitiçaria”. Com o extremismo e a intolerância ganhando força nos campos social e politico nos dias de hoje, entendo que urge revisitar essas questões e refletir sobre esta dívida histórica que a sociedade tem com todas as mulheres, do passado e presente, para além de fronteiras geográficas.
Assim, para articular este contexto e, ao mesmo tempo, celebrar nosso legado de curandeiras, Foto-rituais para a Desaparição acolhe elementos de múltiplas fontes que conectam o Norte e o Sul Global, passado e presente, fotografia e outras mídias (ilustração, filmes analógicos expirados, cianotipia, receitas femininas do século XVII para remédios naturais, panfletos de curandeiras brasileiras dos dias atuais, manuscritos e poesia).
Concebido como um livro “ritual/receita” (que, por definição, existe para transmitir conhecimento e alcançar futuras gerações), Foto-rituais para a Desaparição vem ao mundo como um testemunho e objeto de resistência e resiliência feminina, um gesto que celebra o poder do ser-mulher: nossa forma singular de lidar com amor e morte, de cuidar e curar, resgatando nossa verdadeira história.






