O livro se constrói a partir de um viés psicológico e poético. Ele fala de uma reconexão que acontece após um período de instabilidade. Trata-se de uma experiência íntima, regida por uma atmosfera onde o tempo não é medido — é um tempo que se estende, que se dilata.`
Nesse universo surgem alguns personagens: eu, o cavalo, a árvore e o vento. Os dois primeiros são os protagonistas. No início, existem em suas individualidades: há uma visão que é minha e outra que pertence ao cavalo. Estamos separados, cada um em seu próprio território. Em seguida, ocorre o encontro. Estabelece-se uma relação entre esses dois corpos e, aos poucos, uma fusão, onde subjetividades se projetam e se atravessam.
O cavalo passa a operar como um alter ego — um outro eu — no qual deposito minha afetividade e meu campo emocional. Essa relação não acontece isoladamente: ela é atravessada pela ambiência do lugar, pelas árvores, pelo vento. Um vento que sopra como brisa, trazendo uma dimensão quase mágica aos acontecimentos.
O vento é um personagem essencial. Ele sopra o tempo todo, como no poema de Ana Paula Fadoni. É ele quem provoca a transitoriedade, a impermanência, a não nitidez das formas e dos estados. Nada se fixa. Tudo está em passagem. É esse enevoado que abre espaço para a imaginação.
O vento também atravessa as imagens, sopra as duplas exposições, fazendo com que o imaginário se manifeste. É ele quem faz o tempo se estender, que rompe a lógica cronológica. Aqui, o tempo não se mede: ele se contempla.
Esse é um modo de vida onde a sutileza e a delicadeza nos convocam à reflexão, à imaginação, ao devaneio. Uma dança poética que nos conduz a lugares que não pertencem estritamente à realidade, mas que a transcendem.
As crianças surgem como sensação de liberdade — não como nostalgia, mas como uma vivência fluida, aberta, presente. O vento, mais uma vez, é responsável pela não definição das coisas. Tudo vai sendo construído ao longo do tempo.
Há um processo em curso. As relações, os encontros, as fusões. O que importa não é o estado final, mas os acontecimentos. É nesse movimento contínuo, instável e sensível que o livro se revela.








