O ensaio fotográfico Também é bonito o que não brilha foi realizado no Pico Camapuã, na Serra do Mar paranaense, durante um dia nublado. As imagens nascem de uma experiência de caminhar nesse ambiente envolto em neblina, onde a paisagem se apresenta de forma contida, quase suspensa. Trata-se de um trabalho que busca olhar para a paisagem sem o fascínio do espetáculo, sem a necessidade do brilho ou da luz do sol. Aqui, a beleza não se impõe, mas se revela com o tempo.
O título do ensaio reflete uma recusa ao convencional. Ele questiona a ideia de que o valor da imagem está no que brilha, no que se impõe ao olhar. Ao contrário, propõe uma estética do discreto e do sutil. A fotografia, neste caso, aproxima-se da paisagem de maneira mais sensível e silenciosa, permitindo que o que está à margem ou oculto se mostre com delicadeza. A busca não é por imagens de impacto imediato, mas por gestos que exigem uma relação mais íntima com o que está diante da câmera.
O ensaio reflete uma das principais questões que venho explorando na pesquisa acadêmica e artística: como a fotografia pode ser uma forma de conhecimento situada, que emerge a partir da experiência do corpo no território. A imagem aqui não é apenas uma representação, mas uma prática de envolvimento com o mundo. A paisagem não é tratada como um cenário fixo, mas como um processo vivo e em constante transformação. E a fotografia, nesse contexto, torna-se um dispositivo de pensamento, de relação com esse mundo.
A escolha do dia nublado, em que a luz é suavizada e a visibilidade é reduzida, reflete uma recusa à busca pela imagem perfeita ou espetacular. As condições atmosféricas desfavorecem uma fotografia convencional e revelam uma outra qualidade de luz, mais difusa e menos contrastada, mais intangível. A beleza, nesse caso, não está na clareza, mas na ambiguidade e na suavidade. As imagens buscam uma estética que não é de exibição, mas de presença. Elas não se impõem ao espectador, mas convidam a uma aproximação mais lenta e mais sensível.




