SelFé atravessa o tempo como um retorno insistente a um mesmo gesto. Um braço que se estende, um rosto que se oferece à imagem, um corpo que caminha. Desde 2015, acompanho as romarias de finados de Juazeiro do Norte, território onde o sagrado e o cotidiano se confundem na poeira da estrada, na promessa murmurada, na pausa antes do retrato. O que me move não é a espetacularização da devoção, mas a observação atenta de um fenômeno contemporâneo que se infiltra no ritual: a autoimagem como marca de existência.
O livro nasce da repetição. Voltar todos os anos ao mesmo lugar, encontrar rostos que envelhecem, mãos que seguram a fotografia do ano anterior, gestos que se transformam quase imperceptivelmente. A selfie aqui deixa de ser ruído ou narcisismo superficial e se revela como vestígio. Um modo de afirmar presença. Um pacto silencioso entre quem fotografa e quem se deixa fotografar. Cada imagem carrega o peso da travessia e a leveza do instante. É documento, mas também é espelho.
SelFé tensiona permanência e passagem. Investiga o que se conserva quando tudo muda. O livro articula imagem e palavra como camadas de uma mesma experiência. O texto de Emi não explica as fotografias, amplia-as. Costura vozes recolhidas ao longo de uma década em cartas, mensagens e confidências partilhadas nas caminhadas. Forma-se um coro discreto, atravessado por memória, desejo e resistência.
Não há respostas nestas páginas. Há perguntas que insistem. O que buscamos quando apontamos a câmera para nós mesmos no meio da jornada. Que imagem queremos deixar como rastro. Quem somos quando nos vemos no fluxo da multidão e, ainda assim, escolhemos permanecer.




